2008/10/21

radical politics technology art- Franz Ackermann: Helicopter Nr.21 (vehicle to flee and to free)


Franz Ackermanns Helicopter Nr. 21 (Flucht- und Befreiungsfahrzeug/vehicle to flee and to free) indicates the beginings of the german terrorism. After original blueprints from 1971 the artist Ackermann rebuilt the actually planed flight-vehicle of the RAF(red army fraction) to flee- a surreal piece of a helicopter built out of a restructered VW car. The overdimensional toy hints on the one hand on the romanticized myth of the RAF, but on the other side shows us the general believe of societal change in the pre-assumed failure right from the start.The technology of hybrid rebuilding as a metaphor of change. This piece from 2003 can be seen outside the ZKM in Karlsruhe as included in the exhibition "Vertrautes Terrain"


Franz Ackermann, Helicopter Nr. 21 (Flucht- und Befreiungsfahrzeug), 2003
Privatsammlung Berlin
Foto: © lightwrapper.com / D. Gubin

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Unidos pela emoção da descoberta

PUBLICO.PT

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21 de Outubro de 2008 - 10h58

Unidos pela emoção da descoberta
Vítor Belanciano

Miguel Soares, o cientista, diz que não existe beleza em fabricar aspirinas. João Paulo Feliciano, o artista, assegura que a beleza está na organização estrutural das proteínas. Entre ciência e arte há mais semelhanças do que tendemos a admitir

a Aconteceu a Miguel Soares, investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, há meses. Habituado a falar para assistências selectas de cientistas em todo o mundo, viu-se e desejou-se para seduzir os alunos da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, onde havia sido convidado a dissertar. Às tantas, percebendo algum alheamento, tratou de demonstrar que entre ciência e arte existem mais pontos de contacto do que, à partida, os jovens candidatos a artistas estariam prontos para reconhecer. E conquistou-os.
O artista plástico João Paulo Feliciano (do qual está em exposição The Blues Quartet, no Museu do Chiado, Lisboa, até ao próximo domingo) tem a experiência contrária. A sua actividade não reflecte, directamente, interesse pela ciência, mas quando elabora sobre o assunto com colegas artistas sente o mesmo distanciamento. Juntámos os dois, à conversa. Perceberam-se diferenças e semelhanças e a mesma vontade criadora. A ciência, aos olhos do senso comum, parece ser mais utilitária. Mas ninguém passa também sem arte.
Miguel Soares - Na arte e na ciência há processos idênticos. O alicerce técnico é necessário nos dois campos. Só se pode criar com uma grande base técnica. Na dança mais clássica, por exemplo, trabalha-se o corpo, nos limites. É uma tarefa exaustiva. Fazemos o mesmo. Temos 15 ou 20 anos de aprendizagem, com suporte puramente técnico. Depois, é então possível incorporar a criatividade, que é qualquer coisa que, infelizmente, na ciência não é ensinada ou valorizada. Existem cientistas criativos, mas surgem espontaneamente. A criatividade não é fomentada.
João Paulo Feliciano - A criatividade, na arte e na ciência, é valorizada no cimo da pirâmide. Aí, no topo, estão os vanguardistas, os que criam, improvisam e imaginam e depois dão um corpo a isso, num estado de liberdade, de ausência de compromisso, a não ser com a sua actividade. Quando descemos à base, deparamos então com os executantes ou funcionários.
M.S. - Há dias tive oportunidade de interagir com alguns dos melhores cientistas do mundo nas áreas onde trabalho. Um deles é um artista. Alguém que descobre coisas que podem dar prémios Nobel, se forem desenvolvidas durante toda a vida, mas que ele abandona depois de um certo tempo, porque quer é fazer outra coisa. Gosta, no fundo, do processo criativo.
J.P.F. - A arte e a ciência são muito diferentes, mas o processo criativo, em ambas as áreas, possui muitas semelhanças.
M.S. - Como se relacionam com o acaso, o inesperado? Na ciência, temos de estar preparados ou proporcionar o acaso.
J.P.F. - Na arte é o mesmo, mas a ciência tem de prepará-lo mais. No caso da arte contemporânea, pelo facto de se ter desmaterializado, é possível operar apenas a partir de uma ideia, embora o design esteja para a arte como a tecnologia para a ciência, permitindo-lhe ter uma visibilidade prática.
Prazer e utilidade
M.S. - Há quem diferencie arte e ciência, argumentando que os objectos ou as ideias produzidas pela arte contemporânea não servem para nada. Do nosso lado, não temos dificuldade em convencer a sociedade de que a ciência serve para qualquer coisa. Se for uma aspirina, tem-se a percepção para que serve esse objecto.
J.P.F. - A ciência até pode não ter um objectivo utilitário preciso, mas o pensamento produzido por um cientista irá passar para os outros elementos da comunidade científica e progressivamente enformar a produção de conhecimento aplicável na prática.
M.S. - No limite, os cientistas fazem isso porque, em áreas como a biomedicina, o trabalho que é feito custa milhões. É difícil à sociedade aceitar que aquela actividade está a ser desenvolvida apenas pelo prazer. Mas a verdade é essa. Claro que esse prazer pode ser dirigido para qualquer coisa de funcional - a cura do cancro, por exemplo -, mas isso é todo um outro processo.
J.P.F. - Na origem, pode não existir uma motivação utilitária, mas o fim será sempre o de enformar a discussão científica, mesmo que não venha a existir uma aplicabilidade concreta.


[DNA/RNA] Any Deal Now/Any Reality Now
2001–2002 & 2003
Installation/Performance at
the Centre Culturel Suisse Paris, 2003
Photos by Stéphane Kropf
*Gleyre Foundation Prize
M.S. - O Nobel de Medicina de há dois anos, o Craig Mello, que esteve cá recentemente, trabalhava com ARN (ácido ribonucleico), moléculas que traduzem as mensagens codificadas dos genes (ADN), onde está codificada a informação das células. Era estranho porque os ARN não pareciam servir para nada, mas andou anos à volta daquilo porque o fascinava. Acabou por descobrir que os ARN serviam para regular processos biológicos fundamentais para a vida das células, mas durante 20 anos a motivação era simplesmente perceber aquilo. Era o conhecimento pelo conhecimento. Não havia um propósito utilitário.
J.P.F. - Há uma coisa que partilhamos. Mesmo quando as pessoas não têm ferramentas para descodificar o mundo específico da arte contemporânea, há situações em que a força de uma obra pode encantar. Há qualquer coisa - chamemos-lhe beleza - que emociona as pessoas e, nesse sentido, cumpre uma função artística. Na ciência, a beleza está na descoberta da harmonia dos padrões extraordinários do mundo, da natureza das coisas, dos fenómenos. As descobertas científicas materializam essa complexidade fascinante do mundo. A arte tem isso, mas de forma menos directa. Mas a procura daquilo que provoca a emoção, que faz com que o ser humano se encontre com uma forma, uma ideia, e se emocione, isso é comum na arte e na ciência.
M.S. - Mas se isso for dito a um cientista, ele vai achar um horror. É uma heresia dizeres, em ciência, que parte do teu trabalho tem um lado emocional. Somos educados para que toda a nossa actividade seja profundamente racional. Criar emoções, ou ter criatividade, para provocar emoções nos outros, é apagado.
J.P.F. - É apagado porque se esquecem desta dimensão do belo.
M.S. - Ela não existe. Não estamos ali para criar beleza, mas sim aspirinas e conhecimento. Achas que um laboratório cria beleza? É aspirinas. Onde está a beleza de fabricar uma aspirina?
J.P.F. - Está na organização estrutural das proteínas!
M.S. - Ninguém pensa nisso!
J.P.F. - Não digo que os cientistas pensem nisso. Estou é a dizer que isso está lá, intrinsecamente.
M.S. - Mas isso és tu que, a partir daquela informação, consegues ver qualquer coisa que 99 por cento das pessoas não alcançam.
J.P.F. - Um artista tem, à partida, a preocupação de procurar a beleza. Tenta que esteja presente no seu trabalho. O cientista não tem essa preocupação, mas ao tocar nessa dimensão da descoberta da grande harmonia do mundo está a introduzir uma dimensão espiritual naquilo que faz. Em última instância, podíamos convocar aqui a ideia de Deus ligada à harmonia do mundo e à construção do conhecimento, da natureza, da criatividade.
M.S. - Mas Deus não existe!
J.P.F. - A ciência tem provado, cada vez mais, que Deus existe. A arte também, mas de outra forma.
M.S. - Ok, já vamos por aí. Mas agora dou dois exemplos quase caricaturais. Quando estava no liceu, escolhia-se arte ou ciência e tínhamos dois tipos de pessoas que iam para uma e outra área. Os tipos de óculos iam para ciências e os mais irreverentes, não conformistas, para artes. O processo selectivo, nas ciências, favorece o comportamento cartesiano, racional e apaga o comportamento emocional. Dizem que não estamos cá para isso. Estamos cá para produzir conhecimento, temos um método, um trabalho árduo, e a emoção não é para aqui chamada. Ao longo da cadeia de selecção, os menos adaptados a esse pensamento vão sendo eliminados. No fim, há técnica, mas os aspectos criativos não são trabalhados. O lado emocional é desligado. Só quando chegas ao mais alto nível, aos centros de excelência, é que percebes que nos processos de selecção que avaliam a importância de uma descoberta é que a escolha pode ser emocional.
Numa conversa informal com a editora da revista Nature - que tem uma importância enorme no nosso sistema - perguntava-lhe o que determinava a sua selecção de artigos. Seria de esperar que fosse uma escolha racional, não é?
J.P.F. - Isso é impossível.
M.S. - Dizes tu, que estás num meio onde isso não faz confusão. Ao nível da ciência, a emoção nem sequer é mencionada. Neste contexto, perguntei à editora da Nature qual foi o critério para quererem publicar um artigo que escrevi, que reflecte uma descoberta feita por nós, no instituto. Foi a credibilidade da investigação, mas o facto de termos descoberto que o monóxido de carbono - um gás que mata e que é horrível aos olhos da maioria - podia evitar, segundo um certo mecanismo, o desenvolvimento da esclerose cria uma emoção adicional. O monóxido de carbono cria emoção. Há cientistas muito bons nisto: dirigem boas investigações, mas com esta coisa suplementar, que é a faculdade de nos tocar.
J.P.F. - Claro!
M.S. - Não é. Se fosse, o liceu não eliminava os irreverentes. A estrutura de ensino seria diferente. Uma componente para a descoberta de novo conhecimento é emocional e criativa. Temos a ideia que a universidade é um laboratório de conhecimento, e deveria sê-lo, mas não é. E cada vez vai deixar de sê-lo mais, com excepção dos centros de elite, que são poucos. Porque não se está a formar indivíduos com capacidade de criar, que se outorgam a liberdade de pôr em causa, de fazer ligações nunca feitas. Isso devia ser incentivado, mas não é. E, quando isso acontece, as instituições transformam-se em fábricas de funcionários.
Não digo que deveríamos tratar o conhecimento científico como se fosse uma forma artística, mas não há percepção de que os valores da arte existem intrinsecamente no processo científico. Nas instituições de elite isso é favorecido em relação ao resto.
J.P.F. - Mas, genericamente, a ciência tende a ser mais séria que a arte.
M.S. - Mentira!
J.P.F. - A arte possibilita formular objectos artísticos, e manipular os mecanismos de legitimação, de forma menos objectiva.
M.S. - Não. Qual é a motivação do cientista que está na Fundação Rockefeller a tentar dar a volta ao vírus da sida? Salvar a humanidade? Mentira! É a emoção da descoberta. É a emoção de descobrir como é que aquilo dá a volta ao sistema todo. É um jogo. Tens de falar com pessoas, tens de favorecer todos os teus suportes para teres criatividade e dares a volta àquilo. Isso é puramente emocional e criativo.
J.P.F. - Mas a arte propicia mais mecanismos de subversão da sua natureza intrínseca.
M.S. - Isso está escrito onde? Quem é que impõe isso? O que faz um bom cientista, ou um bom artista, é a criatividade. Ponto.
J.P.F. - Isso é verdade.


Fim

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