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21 de Outubro de 2008 - 10h58
Unidos pela emoção da descoberta
Vítor Belanciano
Miguel Soares, o cientista, diz que não existe beleza em fabricar aspirinas. João Paulo Feliciano, o artista, assegura que a beleza está na organização estrutural das proteínas. Entre ciência e arte há mais semelhanças do que tendemos a admitir
a Aconteceu a Miguel Soares, investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, há meses. Habituado a falar para assistências selectas de cientistas em todo o mundo, viu-se e desejou-se para seduzir os alunos da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, onde havia sido convidado a dissertar. Às tantas, percebendo algum alheamento, tratou de demonstrar que entre ciência e arte existem mais pontos de contacto do que, à partida, os jovens candidatos a artistas estariam prontos para reconhecer. E conquistou-os.
O artista plástico João Paulo Feliciano (do qual está em exposição The Blues Quartet, no Museu do Chiado, Lisboa, até ao próximo domingo) tem a experiência contrária. A sua actividade não reflecte, directamente, interesse pela ciência, mas quando elabora sobre o assunto com colegas artistas sente o mesmo distanciamento. Juntámos os dois, à conversa. Perceberam-se diferenças e semelhanças e a mesma vontade criadora. A ciência, aos olhos do senso comum, parece ser mais utilitária. Mas ninguém passa também sem arte.
Miguel Soares - Na arte e na ciência há processos idênticos. O alicerce técnico é necessário nos dois campos. Só se pode criar com uma grande base técnica. Na dança mais clássica, por exemplo, trabalha-se o corpo, nos limites. É uma tarefa exaustiva. Fazemos o mesmo. Temos 15 ou 20 anos de aprendizagem, com suporte puramente técnico. Depois, é então possível incorporar a criatividade, que é qualquer coisa que, infelizmente, na ciência não é ensinada ou valorizada. Existem cientistas criativos, mas surgem espontaneamente. A criatividade não é fomentada.
João Paulo Feliciano - A criatividade, na arte e na ciência, é valorizada no cimo da pirâmide. Aí, no topo, estão os vanguardistas, os que criam, improvisam e imaginam e depois dão um corpo a isso, num estado de liberdade, de ausência de compromisso, a não ser com a sua actividade. Quando descemos à base, deparamos então com os executantes ou funcionários.
M.S. - Há dias tive oportunidade de interagir com alguns dos melhores cientistas do mundo nas áreas onde trabalho. Um deles é um artista. Alguém que descobre coisas que podem dar prémios Nobel, se forem desenvolvidas durante toda a vida, mas que ele abandona depois de um certo tempo, porque quer é fazer outra coisa. Gosta, no fundo, do processo criativo.
J.P.F. - A arte e a ciência são muito diferentes, mas o processo criativo, em ambas as áreas, possui muitas semelhanças.
M.S. - Como se relacionam com o acaso, o inesperado? Na ciência, temos de estar preparados ou proporcionar o acaso.
J.P.F. - Na arte é o mesmo, mas a ciência tem de prepará-lo mais. No caso da arte contemporânea, pelo facto de se ter desmaterializado, é possível operar apenas a partir de uma ideia, embora o design esteja para a arte como a tecnologia para a ciência, permitindo-lhe ter uma visibilidade prática.
Prazer e utilidade
M.S. - Há quem diferencie arte e ciência, argumentando que os objectos ou as ideias produzidas pela arte contemporânea não servem para nada. Do nosso lado, não temos dificuldade em convencer a sociedade de que a ciência serve para qualquer coisa. Se for uma aspirina, tem-se a percepção para que serve esse objecto.
J.P.F. - A ciência até pode não ter um objectivo utilitário preciso, mas o pensamento produzido por um cientista irá passar para os outros elementos da comunidade científica e progressivamente enformar a produção de conhecimento aplicável na prática.
M.S. - No limite, os cientistas fazem isso porque, em áreas como a biomedicina, o trabalho que é feito custa milhões. É difícil à sociedade aceitar que aquela actividade está a ser desenvolvida apenas pelo prazer. Mas a verdade é essa. Claro que esse prazer pode ser dirigido para qualquer coisa de funcional - a cura do cancro, por exemplo -, mas isso é todo um outro processo.
J.P.F. - Na origem, pode não existir uma motivação utilitária, mas o fim será sempre o de enformar a discussão científica, mesmo que não venha a existir uma aplicabilidade concreta.

[DNA/RNA] Any Deal Now/Any Reality Now
2001–2002 & 2003
Installation/Performance at
the Centre Culturel Suisse Paris, 2003
Photos by Stéphane Kropf
*Gleyre Foundation Prize
M.S. - O Nobel de Medicina de há dois anos, o Craig Mello, que esteve cá recentemente, trabalhava com ARN (ácido ribonucleico), moléculas que traduzem as mensagens codificadas dos genes (ADN), onde está codificada a informação das células. Era estranho porque os ARN não pareciam servir para nada, mas andou anos à volta daquilo porque o fascinava. Acabou por descobrir que os ARN serviam para regular processos biológicos fundamentais para a vida das células, mas durante 20 anos a motivação era simplesmente perceber aquilo. Era o conhecimento pelo conhecimento. Não havia um propósito utilitário.
J.P.F. - Há uma coisa que partilhamos. Mesmo quando as pessoas não têm ferramentas para descodificar o mundo específico da arte contemporânea, há situações em que a força de uma obra pode encantar. Há qualquer coisa - chamemos-lhe beleza - que emociona as pessoas e, nesse sentido, cumpre uma função artística. Na ciência, a beleza está na descoberta da harmonia dos padrões extraordinários do mundo, da natureza das coisas, dos fenómenos. As descobertas científicas materializam essa complexidade fascinante do mundo. A arte tem isso, mas de forma menos directa. Mas a procura daquilo que provoca a emoção, que faz com que o ser humano se encontre com uma forma, uma ideia, e se emocione, isso é comum na arte e na ciência.
M.S. - Mas se isso for dito a um cientista, ele vai achar um horror. É uma heresia dizeres, em ciência, que parte do teu trabalho tem um lado emocional. Somos educados para que toda a nossa actividade seja profundamente racional. Criar emoções, ou ter criatividade, para provocar emoções nos outros, é apagado.
J.P.F. - É apagado porque se esquecem desta dimensão do belo.
M.S. - Ela não existe. Não estamos ali para criar beleza, mas sim aspirinas e conhecimento. Achas que um laboratório cria beleza? É aspirinas. Onde está a beleza de fabricar uma aspirina?
J.P.F. - Está na organização estrutural das proteínas!
M.S. - Ninguém pensa nisso!
J.P.F. - Não digo que os cientistas pensem nisso. Estou é a dizer que isso está lá, intrinsecamente.
M.S. - Mas isso és tu que, a partir daquela informação, consegues ver qualquer coisa que 99 por cento das pessoas não alcançam.
J.P.F. - Um artista tem, à partida, a preocupação de procurar a beleza. Tenta que esteja presente no seu trabalho. O cientista não tem essa preocupação, mas ao tocar nessa dimensão da descoberta da grande harmonia do mundo está a introduzir uma dimensão espiritual naquilo que faz. Em última instância, podíamos convocar aqui a ideia de Deus ligada à harmonia do mundo e à construção do conhecimento, da natureza, da criatividade.
M.S. - Mas Deus não existe!
J.P.F. - A ciência tem provado, cada vez mais, que Deus existe. A arte também, mas de outra forma.
M.S. - Ok, já vamos por aí. Mas agora dou dois exemplos quase caricaturais. Quando estava no liceu, escolhia-se arte ou ciência e tínhamos dois tipos de pessoas que iam para uma e outra área. Os tipos de óculos iam para ciências e os mais irreverentes, não conformistas, para artes. O processo selectivo, nas ciências, favorece o comportamento cartesiano, racional e apaga o comportamento emocional. Dizem que não estamos cá para isso. Estamos cá para produzir conhecimento, temos um método, um trabalho árduo, e a emoção não é para aqui chamada. Ao longo da cadeia de selecção, os menos adaptados a esse pensamento vão sendo eliminados. No fim, há técnica, mas os aspectos criativos não são trabalhados. O lado emocional é desligado. Só quando chegas ao mais alto nível, aos centros de excelência, é que percebes que nos processos de selecção que avaliam a importância de uma descoberta é que a escolha pode ser emocional.
Numa conversa informal com a editora da revista Nature - que tem uma importância enorme no nosso sistema - perguntava-lhe o que determinava a sua selecção de artigos. Seria de esperar que fosse uma escolha racional, não é?
J.P.F. - Isso é impossível.
M.S. - Dizes tu, que estás num meio onde isso não faz confusão. Ao nível da ciência, a emoção nem sequer é mencionada. Neste contexto, perguntei à editora da Nature qual foi o critério para quererem publicar um artigo que escrevi, que reflecte uma descoberta feita por nós, no instituto. Foi a credibilidade da investigação, mas o facto de termos descoberto que o monóxido de carbono - um gás que mata e que é horrível aos olhos da maioria - podia evitar, segundo um certo mecanismo, o desenvolvimento da esclerose cria uma emoção adicional. O monóxido de carbono cria emoção. Há cientistas muito bons nisto: dirigem boas investigações, mas com esta coisa suplementar, que é a faculdade de nos tocar.
J.P.F. - Claro!
M.S. - Não é. Se fosse, o liceu não eliminava os irreverentes. A estrutura de ensino seria diferente. Uma componente para a descoberta de novo conhecimento é emocional e criativa. Temos a ideia que a universidade é um laboratório de conhecimento, e deveria sê-lo, mas não é. E cada vez vai deixar de sê-lo mais, com excepção dos centros de elite, que são poucos. Porque não se está a formar indivíduos com capacidade de criar, que se outorgam a liberdade de pôr em causa, de fazer ligações nunca feitas. Isso devia ser incentivado, mas não é. E, quando isso acontece, as instituições transformam-se em fábricas de funcionários.
Não digo que deveríamos tratar o conhecimento científico como se fosse uma forma artística, mas não há percepção de que os valores da arte existem intrinsecamente no processo científico. Nas instituições de elite isso é favorecido em relação ao resto.
J.P.F. - Mas, genericamente, a ciência tende a ser mais séria que a arte.
M.S. - Mentira!
J.P.F. - A arte possibilita formular objectos artísticos, e manipular os mecanismos de legitimação, de forma menos objectiva.
M.S. - Não. Qual é a motivação do cientista que está na Fundação Rockefeller a tentar dar a volta ao vírus da sida? Salvar a humanidade? Mentira! É a emoção da descoberta. É a emoção de descobrir como é que aquilo dá a volta ao sistema todo. É um jogo. Tens de falar com pessoas, tens de favorecer todos os teus suportes para teres criatividade e dares a volta àquilo. Isso é puramente emocional e criativo.
J.P.F. - Mas a arte propicia mais mecanismos de subversão da sua natureza intrínseca.
M.S. - Isso está escrito onde? Quem é que impõe isso? O que faz um bom cientista, ou um bom artista, é a criatividade. Ponto.
J.P.F. - Isso é verdade.
Fim
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